"Garapa" se pretende objetivo, mas manipula emoções
No 59º Festival de Berlim, no mês passado, José Padilha impressionou com o retrato da fome feito em "Garapa", documentário em preto-e-branco que acompanha a rotina de três famílias pobres no Nordeste brasileiro. Em compensação, na sessão para a imprensa de São Paulo, realizada em função do 14º Festival Internacional de Documentários - É Tudo Verdade (de 25 de março a 5 de abril, em São Paulo), o filme teve um efeito menos impactante e mais crítico. Talvez porque boa parte dos críticos e jornalistas especializados esteja familiarizada com o cinema do diretor.
Para recapitular, "Garapa" nasceu da curiosidade de Padilha para com os números de uma pesquisa do iBase sobre o impacto do programa Fome Zero, com cerca de base dos 11 milhões de beneficiados. Apoiado nos números e com a ajuda de entidades assistenciais, o cineasta selecionou três famílias do Ceará que vivem em "situação de insegurança alimentar grave", uma delas em Fortaleza, outra no interior, em Choró, e a terceira na área rural. Na época das filmagens, apenas uma das famílias estava inscrita no programa - hoje, todas estão.
"Garapa" mostra como essas famílias, geridas especialmente pelas mulheres, conseguem sobreviver sem ter o que comer. O título do filme vem da mistura de água morna e açúcar dada às crianças para que tenham energia para passar o dia sem refeições. A falta de comida, por sua vez, vem de outras privações: educação, trabalho e infraestrutura básica.
O retrato feito por Padilha dessas famílias pobres e privadas de cuidados básicos se pretende "direto" e "sem filtros intelectuais". No entanto, o cineasta faz uma opção estética pelo efeito. O preto-e-branco granulado resultante na fotografia induz o espectador a sentir pena e se solidarizar ainda mais com a situação dos personagens retratados. Não há como negar a manipulação estática, uma tendência que se repete na carreira do cineasta desde "Ônibus 174", o documentário sobre o sequestro do coletivo carioca que terminou com a morte do sequestrador e de uma das reféns.
Lá pelas tantas, Padilha intervém, em todos os sentidos. Faz perguntas às mulheres e aos seus maridos. Questiona como o Fome Zero ajuda aos beneficiados, quanto tempo duram as provisões e o que mais falta para as famílias saírem da linha da miséria. Chega a intervir, pecado capital no cânone dos documentaristas, quando uma das crianças sofre com dor de dente. Ele compra analgésico para acabar com a dor, mas avisa ao pai que se trata de um paliativo, o problema ainda persiste e tem que ser cuidado para sarar completamente.
É inegável que Padilha tem domínio do meio e o sentido da oportunidade. Depois de "Ônibus 174" e de "Tropa de Elite", a ficção que mexeu com o imáginário do brasileiro, ele aparece com outro documentário sobre um assunto candente e incômodo. O tratamento que dá a esses assuntos e a visão que tem deles é que deve e precisa ser discutida.
(Alessandro Giannini)
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