UOL Cinema
19/03/2009

"Garapa" se pretende objetivo, mas manipula emoções

 

No 59º Festival de Berlim, no mês passado, José Padilha impressionou com o retrato da fome feito em "Garapa", documentário em preto-e-branco que acompanha a rotina de três famílias pobres no Nordeste brasileiro. Em compensação, na sessão para a imprensa de São Paulo, realizada em função do 14º Festival Internacional de Documentários - É Tudo Verdade (de 25 de março a 5 de abril, em São Paulo), o filme teve um efeito menos impactante e mais crítico. Talvez porque boa parte dos críticos e jornalistas especializados esteja familiarizada com o cinema do diretor.

Para recapitular, "Garapa" nasceu da curiosidade de Padilha para com os números de uma pesquisa do iBase sobre o impacto do programa Fome Zero, com cerca de base dos 11 milhões de beneficiados. Apoiado nos números e com a ajuda de entidades assistenciais, o cineasta selecionou três famílias do Ceará que vivem em "situação de insegurança alimentar grave", uma delas em Fortaleza, outra no interior, em Choró, e a terceira na área rural. Na época das filmagens, apenas uma das famílias estava inscrita no programa - hoje, todas estão.

"Garapa" mostra como essas famílias, geridas especialmente pelas mulheres, conseguem sobreviver sem ter o que comer. O título do filme vem da mistura de água morna e açúcar dada às crianças para que tenham energia para passar o dia sem refeições. A falta de comida, por sua vez, vem de outras privações: educação, trabalho e infraestrutura básica.

O retrato feito por Padilha dessas famílias pobres e privadas de cuidados básicos se pretende "direto" e "sem filtros intelectuais". No entanto, o cineasta faz uma opção estética pelo efeito. O preto-e-branco granulado resultante na fotografia induz o espectador a sentir pena e se solidarizar ainda mais com a situação dos personagens retratados. Não há como negar a manipulação estática, uma tendência que se repete na carreira do cineasta desde "Ônibus 174", o documentário sobre o sequestro do coletivo carioca que terminou com a morte do sequestrador e de uma das reféns. 

Lá pelas tantas, Padilha intervém, em todos os sentidos. Faz perguntas às mulheres e aos seus maridos. Questiona como o Fome Zero ajuda aos beneficiados, quanto tempo duram as provisões e o que mais falta para as famílias saírem da linha da miséria. Chega a intervir, pecado capital no cânone dos documentaristas, quando uma das crianças sofre com dor de dente. Ele compra analgésico para acabar com a dor, mas avisa ao pai que se trata de um paliativo, o problema ainda persiste e tem que ser cuidado para sarar completamente.

É inegável que Padilha tem domínio do meio e o sentido da oportunidade. Depois de "Ônibus 174" e de "Tropa de Elite", a ficção que mexeu com o imáginário do brasileiro, ele aparece com outro documentário sobre um assunto candente e incômodo. O tratamento que dá a esses assuntos e a visão que tem deles é que deve e precisa ser discutida.

(Alessandro Giannini)

 

Por Redação às 17h16
17/03/2009

Legendagem de filmes 3D ainda é problemática

Em "Bolt – Supercão", as vozes originais dos heróis eram de John Travolta e Miley Cyrus. Em "Coraline", Dakota Fanning emprestou a voz à menina rebelde. As duas recentes animações e também o filme de terror "Dia dos Namorados Macabro", que estreou semana passada, puderam ser assistidos em uma das 34 salas de cinema do país que dispõe de tecnologia 3D. Mas quem esperava poder ouvir as versões originais dos filmes nessas salas se decepcionou: todas tinham cópias dubladas.

A falta de filmes 3D em suas versões originais não está relacionada necessariamente a uma preferência do público, e sim a questões técnicas que impedem, por enquanto, a legendagem dos filmes. Segundo distribuidores e exibidores ouvidos por UOL Cinema, a maior barreira para o uso de legendas é o risco de comprometer a "imersão" do público, um dos grandes trunfos do uso de 3D nos cinemas.

Consultada por e-mail, a empresa RealD, responsável por uma das tecnologias de projeção 3D mais comuns nos cinemas, diz que muitos testes já foram feitos e que a legendagem de filmes 3D é, sim, possível, mas requer tratamento especial. Para um resultado de qualidade, ela teria que fazer parte da pós-produção do filme, utilizando a mesma tecnologia, o que demandaria tempo e custaria caríssimo, segundo a empresa, sem precisar valores.

Por enquanto, as legendas em filmes 3D já foram propostas de duas maneiras, segundo o gerente de tecnologia do Cinemark Brasil, Luciano Silva. Em uma delas, é exibida uma legenda tridimensional – que flutua na tela assim como um machado que voa na direção do público. "Mas focar a todo o momento em um elemento que faz parte do 3D causou náuseas no público em testes feitos no exterior", diz Silva. O mesmo não acontece nos filmes convencionais já que as imagens do filme e das legendas estão no mesmo plano.


"Coraline e o Mundo Secreto" teve cópias legendadas apenas em 2D

Outra opção já testada é projetar as legendas convencionais sobre uma tarja preta na parte inferior ou superior da tela. Silva explica que essa alternativa, usada por exemplo em trailers de "Beowulf", resolve em parte a questão do mal estar, mas acaba com a sensação de "imersão".

"Assistir a um filme em 3D com legendas seria como dirigir numa estrada olhando sempre para placa do caminhão na sua frente", compara Adhemar Oliveira, sócio das redes Espaço Unibanco e Unibanco Arteplex. "O filme 3D é feito para dar uma inserção virtual numa realidade tridimensional, e as legendas ainda não combinam com esse conceito", diz.

Jorge Peregrino, presidente do Sindicato dos Distribuidores do Rio de Janeiro, diz que não é possível prever quando uma solução será encontrada, mas que já existe um grupo de engenheiros dos estúdios tentando achar uma saída. "Uma boa solução será criada, é apenas uma questão de tempo", diz Peregrino, que também é vice-presidente da Paramount da America Latina. "Ainda não dá para arriscar pegar um produto que custa caríssimo para fazer, que é um filme 3D, e acrescentar algo que compromete qualidade final", diz.

"Preconceito contra a dublagem"
Se a dublagem dos filmes desanima quem está acostumado com as legendas, ela pode agradar a uma considerável parcela dos frequentadores de cinema. No fim do ano passado, uma pesquisa encomendada pelo Sindicato dos Distribuidores do Rio de Janeiro mostrou que 56% dos frequentadores de cinemas preferiam filmes dublados, contra os 37% que preferiam as legendas.

"Há um preconceito no Brasil em relação à dublagem, e parece mais uma avaliação imposta por uma determinada camada. Hoje, nos grandes lançamentos com cópias dubladas e legendadas, tem crescido assustadoramente o volume de público nas cópias dubladas", diz Adhemar Oliveira.

Até o final do ano, cerca de dez novos filmes devem ser exibidos nas salas 3D do país, que devem aumentar em número apesar dos reflexos da crise econômica, segundo Peregrino. Entre os lançamentos, estão animações como "Monstros vs. Alienígenas" e "Madagascar 3" e também o filme teen "Jonas Brothers 3D" - todos têm como principal público as crianças e adolescentes. Mas os filmes "live-action" (com atores reais) em 3D também vão se tornar cada vez mais comuns. Um dos lançamentos mais esperados de 2009 é "Avatar", que será feito em 3D e marcará o retorno de James Cameron à direção de um longa de ficção 12 anos depois de "Titanic". Aí o público que é fã das legendas pode começar a se incomodar.

Assista ao trailer de "Monstros vs. Alienígenas", que estreia em abril:

Por Redação às 07h43

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